Sexta, 18 Fevereiro 2005
A Consagração
'Re-Definições' foi o disco português mais vendido de 2004. Hoje, em noite de consagração, sobem ao palco do Coliseu dos Recreios para fazer a festa. Em jeito de apresentação, Pacman e Jay falam ao DN
2004 foi o ano Da Weasel?
Pacman - Para nós foi... Foi o acumular de muita coisa boa que tem acontecido connosco. E esse acumular deu quase todos os frutos em 2004. Foi o disco que correu melhor em termos de vendas, de adesão do público, do single. Houve o prémio da MTV, o DVD...
Foram precisos dez anos para atingirem estes feitos. Era impossível que tivessem acontecido mais cedo?
Jay - Se tivesse acontecido mais cedo era a morte do artista. Prefiro ver os Da Weasel como uma carreira. As coisas tiveram de acontecer quando aconteceram. Iniciámo-nos numa independente, passámos para uma semi-independente, depois veio uma multinacional. O que veio não veio tarde nem cedo. E vejo que os Da Weasel estão bem.
Pacman - Se tivéssemos vendido 60 mil discos do primeiro álbum não teria sido possível oferecermos o concerto que hoje damos ao nosso público.
Conquistaram um estatuto. Já pensaram como é que o vão manter?
Jay - Nunca pensámos muito nisso. A carreira dos Da Weasel tem sido pautada por estas surpresas. Nunca tivemos objectivos... Nunca nos dispusemos a atingir um patamar ou dimensão. Penso que irá ser sempre assim... Manter o estatuto? O estatuto ainda está a ser criado...
O que significa vender 60 mil discos?
Jay - Estamos a colher o fruto de dez anos de trabalho, muita estrada, muitos concertos. Os Da Weasel chegaram às pessoas através da música ao vivo. Este foi o primeiro disco que se calhar passou em mais algumas rádios. Em mais algumas, posso contá-las pelos dedos da mão... Os Da Weasel nunca foram um produto de rádio. Os Da Weasel e muitas bandas em Portugal... (umas mais que outras). Vender 60 mil é a recompensa destes anos e de muita estrada.
Faz sentido que o disco português que mais vendeu em 2004 não tenha passado em muitas outras rádios?
Jay - É uma questão pertinente. É o disco português que mais vendeu e não necessariamente o mais tocado. Não sei... Acho que isso quer dizer que quem quer consumir Da Werasel consome...
É a rádio que está errada?
Jay - Será? Se calhar está.
O que é que este disco tinha de diferente face aos anteriores para ter permitido estes resultados?
Pacman - Houve o tal acumular dos dez anos de trabalho, mas também um single que ajudou bastante. Toda a gente agarrou o single de uma maneira incrível. E depois é toda essa história de dez anos de concertos, termos participado em muitos festivais. Mas os fãs novos, que conheceram os Da Weasel através do Re-Tratamento, já estão a irbuscar tudo para trás e estão a aderir bastante?
Quem é o novo público dos Da Weasel? É, essencialmente, gente muito jovem?
Pacman - Passa muito por aí, mas há também os pais dos miúdos.
Jay - Ambos vão ao concerto. Pensávamos que eram os filhos que levavam os pais ao concerto, mas também havia o contrário. Os pais também querem ver o concerto. Temos fãs quarentões.
Os Da Weasel vendem discos. São a excepção no hip hop português?
Jay - O hip hop... a velha questão.
Pacman - É o nosso hip hop, é diferente. Não dá para considerar exactamente hip hop, e as pessoas cada vez mais têm cultura para compreender isso. E separam bem... Quando se fala em hip hop as pessoas concentram-se muito mais em Sam The Kid, Chullage, Valete... Essa é a montra do hip hop português. Somos um projecto que passa por muito mais.
Sentem que transcendem essa fronteira, como o fizeram uns Outkast ou NERD?
Pacman - Sim, penso que estamos mais para aí, e sempre estivemos. E foi muito bom ver bandas como os NERD surgirem e influenciarem as pessoas como estão a fazer. Seria redutor para os Da Weasel falar-se só em hip hop.
Em Portugal o hip hop faz-se em português e cada vez mais pop acontece em inglês. Porquê?
Jay - O hip hop provavelmente tem muito mais espaço. Há uma ponte mais rica no português para escrever hip hop. Mais assuntos, que dizem mais directamente às pessoas...
O que significou para os Da Weasel ganhar um prémio da MTV?
Jay - No outro dia estava a ver uma newsletter dos Outkast, vinha lá a lista, e os Da Weasel estavam lá. É lindo! Para já é um prémio atribuído por votação popular, quem votou nos Da Weasel não foi um júri, foi o povo. E depois é a MTV, está tudo dito... É uma coisa que nos enche de orgulho e teve uma dimensão que não pensávamos que viria a ter. Isto para além de nos termos divertido à grande e à italiana em Roma.
O DVD que editaram no ano passado é o retrato de um ano especial?
Jay - O DVD surgiu numa fase em alta, e sentimos necessidade de mostrar mais um pouco o nosso lado B. Lo-fi e quase hardcore da essência dos Da Weasel na estrada.
Um concerto no Coliseu é necessariamente diferente?
Jay - O concerto no Coliseu está integrado numa tournée que começou há alguns meses. Há a vantagem de termos este espectáculo rodado, por isso será um concerto mais sólido. Mas um Coliseu permite fazer algumas coisas, como levar convidados que é impossível ter na estrada, como por exemplo o Manel Cruz, o João Gomes, o Sam. Ter um espectáculo de luz e vídeo que não dá para levar para Vinhais.
O alinhamento é alterado?
Jay - Vamos poder pôr canções que não podemos levar para a estrada por falta dos convidados.
Tem algum significado especial para vós dar um concerto numa sala que entre nós é sinónimo de consagração de uma carreira?
Jay - O Coliseu é especial. Já lá tocámos, mas não numa produção própria. É a cereja no topo do bolo, o coroar de um ano extraordinário num palco extraordinário.
Pacman - É um espaço com muita mística, que respeitamos bastante. Já lá vimos muitos concertos...
Como por exemplo...
Pacman - Os Pixies! É uma sala com mais alma e história que um Pavilhão Atlântico. É uma sala quente, quentinha...
E porque fizeram o DVD em Tondela e não no Coliseu?
Jay - Foi numa sala mais pequena, um auditório. Podíamos ter pegado em imagens de festivais, colá-las e mostrar que tínhamos tocado para 40 mil pessoas. Mas estávamos à procura de uma sala pequena. Lançámos um repto aos fãs de verdade para estar presentes. Houve gente que veio do Algarve a Trás-os-Montes. Foram parar a Tondela... Era uma sala pequena onde quase podíamos sentir o cheiro do suor, e fazer um concerto mais intimista, com aquela imagem série B. Podíamos ter feito uma megaprodução, mas não era isso o que queríamos. Esta é que é a nossa estrada, a realidade. Está lá tudo os vómitos, os desatinos. Estão lá os Da Weasel.
in DN
09:50 Escrito em Entrevistas | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail
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