Quarta, 16 Fevereiro 2005
Uma Página de História
O Blitz lançou o desfio: quais as perguntas a que sempre quiseram que os Da Weasel respondessem? Os leitores aceitaram o mote e os autores de Re-Definições responderam, na semana em que se estreiam na mais mítica das salas nacionais.
O último ano foi para os Da Weasel, um conjunto de meses inesquéciveis. Somam-se os galardões de vendas, com mais de 40 mil discos vendidos(Platina) de Re-Definições em plena recessão da industria musical; o respeito de pares, crítica e público; a atribuição do European Music Award da MTV para a Melhor Banda Portuguesa; a gravação de um MTV Live; a edição de 1 DVD – e agora a realização de dois concertos em nome próprio, um no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, na próxima sexta-feira, e um outro no Coliseu do Porto, uma semana depois.
No ano em que o público se rendeu em definitivo aos Da Weasel, fazia sentido que a palavra fosse dada precisamente aos leitores do Blitz, aos ouvintes da música dos autores de “Re-Tratamento”. A jornalista serve, portanto, apenas como veículo de ligação. Estas são(algumas d)as vossas perguntas e respostas dos Da Weasel. “ Respiro fundo e lembro-me da força”.
Quem tomou a iniciativa de chamar ao grupo “doninha”?
Jay Jay – Na altura era parte do título de uma canção dos 3rd Bass “Pop Goes the Weasel”, incuido no albúm Derelicts of Dialect, uma banda norte-americana de hip-hop, muito old-school. Esse nome pareceu-nos ser interessante porque nós falávamos, e falamos, de assuntos mal-cheirosos-o nome era perfeito para dar conta do cheiro incomodativo.
No inicio, os Da Weasel eram um projecto 100% em inglês: porquê a viragem para a língua de Camões?
Pacman – Essa mudança não foi uma coisa pensada. Aliás, a ideia até foi mais das pessoas que estavam á volta da banda. Sugeriram-nos que tentássemos fazer alguma coisa em português, achavam que podia funcionar. E fizemos, um pouco a medo – eu estava um bocado relutante mas rapidamente percebi que tinha sido a atitude certa. E a partir daí pusemos o inglês completamente de lado.
“More than 30 Moherf***s” foi a primeira gravação de hip-hop de uma banda portuguesa – como é que vocês encaram esse espírito pioneiro?
JJ – nós fomos um dos primeiros projectos a ter o privilégio de gravar. Mas foi uma coisa muito espontânea – não nos propusemos a nada ou a dar inicio a coisa nenhuma. Fizemos apenas o tipo de musica que gostávamos e tudo o resto aconteceu.
Já pensaram numa reedição?
JJ – Já, mas seria muito complicado e dolorosamente caro.
Complicado por ser dolorosamente caro?
Quaresma – (risos) Também. Passa-se o mesmo com o Dou-lhe com a Alma. São dois discos que ficaram…perdidos. São discos para coleccionadores.
JJ – o que acho interessante e fascinante nesse disco é precisamente o facto de ser tão difícil de encontrar. Ou seja, quem tem guarda-o religiosamente e isso é muito interessante. Mas como há muita gente que gostava de tê-lo… era engraçado que essas pessoas também o pudessem ter; por outro lado, é giro esse disco estar escondido.
Sendo os Da Weasel uma das bandas pioneiras no hip-hop em Portugal, sentem alguma responsabilidade na sua crescente evolução?
Guilherme – Passa logo por aí – por não sermos realmente uma banda de hip-hop.
JJ – Não somos uma banda de hip-hop puro e duro.
G – Temos algumas linhas hip-hop…
P – Acho que o mais importante no nosso percurso é o facto de, não sendo uma banda de hip-hop mas de crossover, termos feito pessoas que nunca tinham pensado em ouvir hip-hop começarem a ouvir. Começaram a ouvir Da Weasel e depois dele passaram para outras coisas, que são hip-hop a sério – nesse aspecto acho que podemos ter alguma importância. Mas não podemos dizer que fomos a primeira banda nem que fizemos o primeiro disco de hip-hop porque não é verdade.
JJ- O que fazemos é hip-hop Da Weasel.
E o que é hip-hop Da Weasel?
JJ – é um hip-hop que faz parte da base do hip-hop mas que depois viaja pelo hardcore, pelo rock, pelo reggae… Por aquilo que nos der na real gana. E não temos preconceitos absolutamente nenhuns em misturar o que for preciso - desde que seja realmente bom. E passamos com gosto – porque queremos que as coisa resultem genuinamente.
P – tal como o albúm do Andre3000 – The Love Below, dos Outkast já não pode ser considerado hip-hop, porque o ultrapassa. Tal como N.E.R.D…. Nós também estamos nessa Lina: partimos das mesmas bases mas vamos por outros caminhos.
1997 traz a primeira mudança de formação dos Da Weasel, com a saída de Yen Sun e a entrada de Virgul – descrevam a alteração que essa mudança provocou na vossa música?
JJ – Ganhámos…ganhámos o quê?
P – Musicalidade.
JJ – Ganhámos uma outra dimensão, por exemplo, ao vivo – que foi importantíssima. E abrimos a nossa música a mais áreas que podíamos explorar.
P – Ele canta – por isso, trouxe muito mais musicalidade às vozes. Não tínhamos praticamente nenhuma.
JJ – também trouxe sangue novo – ele era um puto, tinha 15 ou 16 anos quando entrou nos Da Weasel. Trouxe uma pureza, um sangue novo e muita garra, que foram muito importantes naquela altura. Além da musicalidade, da força e da expressão.
Em 1998, vocês abriram o concerto de Red Hot Chili Peppers, no Pavilhão Atlântico. Como foi experiência?
JJ – Foi uma experiência inesquecível.
Q – Todos crescemos a ouvir Red Hot…
JJ – E tínhamos o sonho de ver Red Hot Chili Peppers ao vivo…quanto mais abrir o concerto deles! Fazer a primeira parte desse concerto foi um sonho, ainda hoje não estou em mim.
Correu bem?
JJ – Correu muito bem - tivemos uma reacção muito boa do público(que era o nosso grande medo antes de subirmos ao palco). Foi mesmo inesquecível.
A saída de Armando Teixeira deveu-se a pura divergência entre estilo musicais ou houve algo mais que tenha conduzido á rotura?
P – Foi mesmo isso : diferenças musicais.
JJ – O que aconteceu – e é isto que interessa saber – é que chegamos a um determinado ponto em que não estávamos a ver nem a querer as mesmas coisas. Tudo aconteceu à parte das divergências musicais, fica entre nós.
O facto de se afirmarem como uma banda que não é exactamente hip-hop mas que mistura tudo fez com que não ficassem chateados quando o Podes Fugir Mas Não Te Podes Esconder foi apontado como os Da Weasel a venderem-se ao nu-metal ?
JJ – mas nós vendemo-nos ao nu-metal! Gostamos de nu-metal, de death metal, de rock pesado – e sempre gostamos, desde o primeiro dia.
P – Já fazíamos nu-metal antes dele existir como conceito. Por isso para nós é old metal.
JJ – Para todos que nos acusaram de nos termos vendido, aqui fica : nós vendemo-nos ao nu-metal. Porque o que lá está é genuinamente o que queríamos que saísse. Na altura, foi escolhido aquele single “Tas na Boa”. E, quando as pessoas diziam aos Da Weasel estavam nu-metal, a pergunta mais importante era: e conheces o álbum? Não , as pessoas conheciam o single. Escolhemos um tema rock para primeiro ssingle, mais nada… é evidente que há outros apontamentos, como há neste disco e como há no primeiro – “God Bless Johny” é o tema mais nu-metal que existe, sobretudo porque é de 1994.
Mas se vocês se venderam ao nu-metal, a coisa rendeu mais: com Podes Fugir…., chegaram pela primeira vez à marca do Disco de Ouro com Re-Definições chegaram à Platina – como é que encararam os galardões de vendas?
JJ – Os outros discos estiveram perto. Ultrapassaram a Prata e ficaram perto do Ouro, o Podes Fugir…ficou perto da platina. Sempre tivemos, ao vivo, uma multidão que não estava representada em vendas – o que acho que aconteceu com esses dois álbuns foi um acumular deste tempo todo em que tocamos bastante e em que semeamos a palavra. E acho que este galardões acabam por ser um reflexo disso: dos concertos que damos, das digressões que fazemos. Acho que, a partir de determinada altura, algumas canções dos Da Weasel permitiram chegar a um público mais vasto.
Q – A comunicação agora também é diferente: o público consegue absorver mais musica do que há cinco ou dez anos.
JJ – Através do nosso projecto, nunca fomos um grupo com presença habitual de rádio. Sinceramente, passamos em poucas rádios. O que conseguimos foi que, quem gosta realmente de nós, vai á nossa página, sabe tudo sobre nós. E isto começou de palavra em palavra, de boca em boca e com o pessoal a emprestar discos uns aos outros. Provavelmente foi assim que começou a crescer.
Vocês sentiram a altura em que as coisas mudaram?
JJ- ainda no outro dia estivemos a falar nisso: acho que um dos momentos mais importantes da nossa carreira foi termos chegado ao primeiro Disco de Prata. Porque nunca, nem nos nossos melhores sonhos, tínhamos pensado que isso seria possível. Nessa altura, achávamos que alguma coisa se estava a passar. Ter uma Prata com o 3º Capitulo - que é um dos nossos discos mais negros e mais pesados – foi um sinal claro de que alguma coisa se podia realmente passar connosco. O objectivo no disco seguinte era conseguir outra Prata.
Após 10 anos de muito trabalho e já algum sucesso deu-se um surto da doninha com o lançamento do Re-Definições. Como é que prevêem o vosso futuro?
JJ- Sinceramente, achávamos que era muito difícil igualar o sucesso do Podes Fugir… não era ?
Q – Era.
JJ- No entanto, tivemos cabeça suficiente para dar uma pausa e levar, sem pressão nenhuma as coisas para a frente. Não fomos para um estúdio XPTO nem nada – fomos para o campo, “bora trabalhar na descontra e vamos ver o que é que dá” . E é no que deu – por isso, acho que vamos fazer exactamente a mesma coisa, sem pânico, sem procurar. Acho que a única pressão que sentimos foi a nossa.
G – Sentem-se os discos vendidos mas, quando estamos a compor, acho que isso nos passa tudo ao lado. Não há qualquer tipo de responsabilidade: fazemos a musica de que gostamos.
Mas sentem por cima do ombro o olhar de milhares de pessoas que vos compraram os discos?
JJ- Talvez, mas encaramos isso de forma natural. Depois do sucesso do Re-Definições, do ano extraordinário que estávamos a ter, dos prémios da MTV, o nosso DVD é um exemplo de que nos estamos perfeitamente a cagar. Fizemos um DVD lo-fi, ás vezes muito core, precisamente para que as pessoas vejam que somos uma banda que vai ensaiar a um cubículo, que a nossa vida não é o glamour das estrelas do rock que chegam de limousine. A esta altura do campeonato, com este sucesso todo de Re-Definições, podíamos estar a lançar um DVD com uma mega-produção – mas optamos por fazer uma coisa mais terra-a-terra, sentimos necessidade de por um travão. E qunado todas as coisas tiverem que acontecer cheias de produção, acontecerão; mas se tiverem que acontecer à Johnny Guitar, vão acontecer assim – porque nos sentimos bem assim.
Como foi ganhar o prémio para Melhor Banda Portuguesa nos European Music Awards da MTV?
JJ – (risos) Para já, foi um orgulho imenso porque é um prémio atribuído por votação popular, quem nos deu o premio foram as pessoas.
Mas vocês têm sido acompanhados pela MTV: também foram a banda responsável pelo 1º MTV Live português.
G – Dá-nos orgulho e notoriedade. Em primeiro lugar, porque temos o privilégio de estar a trabalhar com a MTV; e depois por sentirmos que estão a reconhecer o nosso valor. Acho que isso é muito bom. Agora, se isso de alguma forma acaba por ser reflectir para fora… Acho que já será mais complicado e para nós não tem muito significado.
JJ – Recebemos mails e cartas de vários pontos do mundo – portanto, isto teve algum reflexo mas provavelmente por essas pessoas estarem em comunidades portuguesas. O que interessa é que essas pessoas nos disseram que os deixamos imensamente orgulhosos. é evidente que, se calhar, nesse tipo de circuito e com esse tipo de ramificações, isto pode ser muito importante. Mas, em termos de mercado internacional, acho bem que não. Acho que devemos ficar com os pés bem assentes na terra e não alucinar. Principalmente porque cantamos em português.
Depois do sucesso de Re-Definições, já começaram a trabalhar no próximo álbum?
JJ – Não. Este álbum nem sequer tem um ano…
Q – Já discutimos algumas coisas. Por vontade de uma parte da banda…
JJ – O próximo álbum sai lá para 2017(risos). Vamos começar a rodar no final deste mês o vídeo do terceiro single – que ainda não podemos revelar.
Acham que depois do sucesso do Re-Definições a carreira dos da Weasel tem tudo para ser descendente?
JJ – Essa pergunta é legitima e não posso fugir da hipótese de que tenha tudo para começar a ser descendente. Provavelmente, no próximo disco vendemos mil discos - mas pode não ser assim tão mau. Se for menos de Prata (10 mil exemplares) será, é o que tem que ser.
P- Desde que seja um bom disco.
G – Acima de tudo isso.
Qual foi o pior concerto dos Da Weasel, aquele em que tudo saiu mal?
Q – O pior concerto é aquele que ainda não aconteceu.
P - É aquele que vai acontecer quando chegarmos à fase descendente. Mas demos um numa discoteca na Figueira da Foz…
JJ – Fomos tocar a uma discoteca em que não deixavam entrar gajos de ténis nem de chapéu – estás a ver?! Da Weasel!?!? Foi surreal: estávamos a tocar com gajos de costas para o palco.
E o melhor?
P – O melhor ainda está para vir.
JJ – O concerto com os Red Hot foi muito bom. E mais pela reacção do publico do que propriamente pelo concerto em si; o último Sudoeste(em 2004), o 1º Vilar de Mouros (1996, em que tocamos no palco secundario, foi muito bom, concertos que demos no Johnny Guitar, com aquilo cheio até à… também não era muito difícil.
Q – No Hard Club.
JJ – No Ritz.
No texto que acompanha a divulgação dos concertos nos Coliseus, afirmam que o que querem “essencialmente é dar um mimo a todo o pessoal que nos acompanha desde sempre bem como aquele apareceu nos últimos anos. A eles e a nós próprios” – como vão afinal ser esses mimos?
P – É um bocado de festa de família. Acho que vamos conseguir fazer uma coisa no coliseu que é muito difícil fazer na estrada, apesar de não ter uma grande produção. Acho que vai passar muito pela pica com que estamos para irmos tocar.
Diz-se que o Coliseu de Lisboa tem uma mística importante. Vocês sentem isso?
JJ – Completamente. Acho que vai ser definitivamente, e tentando antecipar um bocado um dos momentos altos da nossa carreira.
Q – é a sala mais emblemática do país. E imensos artistas já pisaram aquele palco – a pessoa sente-se sempre um bocado assustada.
JJ –é o peso da história.
Qual foi o grande dom com que nasceram?
G – A música.
JJ - Tendo que falar por todos, sim, é a musica.
E quem é a nina?
G – São muitas.
P – A Nina é a pessoa que quem está ouvir quiser que seja.
Qual é a vossa posição em relação à liberalização das drogas leves?
P – Das drogas leves, claro. Eu sou completamente a favor.
JJ – E podemos falar por toda a banda.
Quais são as vossas referências musicais?
JJ – Vão do metal ao… ao quê?
Q – à pop.
P – Ouvimos tudo.
G – aos Carpenters
JJ – Sim: ouvimos tudo, dos Napalm Death aos Carpenters.
Q – Os Carpenters só ouve ele.
G – é de um extremo ao outro.
Qual a pergunta à qual não têm resposta?
Q – Essa.
P – Oh, pá, isso era o que eu ia responder.
Texto Ana Ventura
Fotos e capa: Luís Carvalhal
In BLITZ nº 1059
20:50 Escrito em Entrevistas | Permalink | Comentários (3) | Enviar por e-mail
Comentários
Para a banda mais fixe de todo o MUNDO, um grande beijo meu e da minha amiga Marcia.queremos desejar-vos uma continuaçao de optima carreira. nos adoramos as vossas musicas, temos ambos o vosso CD das Redefeniçoes e o iniciaçao de uma vida banal - o manual
Escrito por: Raquel | Sábado, 23 Abril 2005
eu adoro os d weasel e keria mt ter uma entrevista c eles s fosse possivel... desejovos td d bom.... beijos
Escrito por: angela | Quarta, 27 Abril 2005
2 test message
Escrito por: Bill Selevan | Quarta, 21 Maio 2008
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