Quarta, 11 Setembro 2002
Who´s The Nerd?
Uma noite destas, ao fazer zapping, dei por mim a ver um vídeo, que suponho ser novo, da Britney Spears. A produção musical não andava longe do que se pode ouvir em «Sweat» (acho que é esse o nome do single). Ou seja, o som característico da dupla de produtores Neptunes, que com mais um amigo compõem os N.E.R.D.. Até aí tudo bem. Não há novidade. Mas desta vez a coisa é diferente. Desta vez Pharrel Williams faz parceria com a dita cuja. Empresta a voz ao tema e bebe copos com ela ao balcão de uma discoteca no teledisco, cujo tema faz parte da banda sonora do terceiro filme de «Austin Powers». Merda. Caiu mal. Passei uns minutos a digerir a coisa. E lembrei-me das razões porque gostava tanto dos Neptunes e dos Nerd, não só da sua música mas também da sua atitude. Rewind, por favor.
A primeira vez que ouvi uma produção dos Neptunes foi num mini-disc enviado por um amigo que vive na Holanda. Uma mix-tape de R&B e Hip-Hop, sem nomes das faixas e autores. Ao lado do tema de Old Dirty Bastard «Baby I Got Your Money» - que conhecia perfeitamente sem no entanto saber que também era produzido pelos mesmos - estava uma das canções mais frescas de hip-hop que andavam a circular no momento.
O tema era de Capone´n´Noreaga, mas não se assemelhava a nada que tivesse ouvido deles. Os beats e estrutura da música, bem como os sons utilizados eram tudo menos normais. Tão inovador como Timbaland, sem ser parecido.
Quando através da letra me apercebi quem eram os responsáveis pela produção comecei a descobrir os Neptunes: Através das mais variadas remisturas e produções de hip-hop: o fenómeno Kelis, sua «apadrinhada», que conseguiram meter a cantar no tal tema de Old Dirty Bastard. A partir daí foi o que se sabe - um artigo na «The Face» que finalmente os mostrava como são: fora. Fora do quê? De todos os estereótipos do hip-hop. Fora de qualquer estereótipo.
Os produtores do momento de hip-hop eram dois gajos magros com tatoos meio xungas, calças de ganga justas, t-shirts de Led Zeppelin e AC/DC, sem a mínima «preocupação» com a imagem. Não vinham de Nova Iorque ou de Los Angeles, mas sim dos confins da Virginia... E confessavam à revista inglesa que eram vistos como «freaks» nos Estados Unidos.
Fazia todo o sentido - não pude deixar de me rir quando me imaginei a ver as caras da malta do hip-hop... A atitude era despreconceituosa: como os próprios mais tarde disseram no press release do álbum dos N.E.R.D. (já lá vamos), não tinham medo de dizer que gostavam dos Queen, por exemplo. Não tinham medo de assumir que nos seus tempos de escola eram vistos como «nerds», e que isso não tinha nada de mal, apenas demonstrava uma falta de capacidade dos outros para aceitar as suas diferenças - que se viriam a revelar preciosas, dizemos nós.
O trabalho não parou e depois de produzir quase tudo dentro desse campo, desde o underground dos Beatnuts até ao mainstream de Puff Daddy, os Neptunes foram chamados por nomes do mais plástico do que é feito na música dos Estados Unidos. Exemplos: N’Sync, Britney Spears e o «Rei da Pop». Aceitaram os convites e fizeram o seu trabalho, sempre com o mesmo entusiasmo. Pérolas a porcos? Não sei. Sei que pelo menos consegui ouvir a «virgem» B.S. de outra maneira, com beats diferentes e arranjos arrojados. E porque não? Melhor assim.
Pelo meio disto tudo os Neptunes tinham sede de gravar um álbum a que pudessem chamar «seu. Junto com um amigo de infância criaram os N.E.R.D.(No one Ever Really Dies) e gravaram o excelente «In Search Of...»... duas vezes. Tudo porque, segundo consta, ao ver os No Doubt a gravar em estúdio com instrumentos «reais», ficaram entusiasmados com as possibilidades de redescoberta da sua música e decidiram retirar do mercado a primeira edição do disco e regravá-lo com instrumentos. Que se foda! Podemos fazer, fazemo-lo. E fizeram-no.
Tenho as duas edições e gosto de cada uma da mesma maneira, porque se alguns temas ganham na primeira aposta, o mesmo acontece na segunda. Gosto da atitude dos N.E.R.D., das suas improváveis fusões: de hip-hop com... rock sinfónico se lhes der na telha, não porque é diferente, mas porque conseguem fazê-lo soar bem. Nasceram para isso.
Por isso, pensando melhor, que se foda se Pharrell Williams fez uma parceria com a Britney Spears. Ao menos consegue fazê-la soar bem. E, mesmo que não se partilhe dessa opinião, ninguém corta feelings a ninguém. Certo, certo é que os No Doubt têm aí a rodar a melhor música que já se lhes ouviu, «Hellagood». Vá-se lá saber porquê... será da produção?! So, Who’s the Nerd?
21:10 Escrito em A Cronica do Puto Pac | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail
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