Quinta, 13 Junho 2002

Uma questão de «acompanhamento»... ou de expectativa?

Os dois últimos concertos a que tive oportunidade de assistir em Lisboa – Jamiroquai e Lenny Kravitz – tiveram, apesar do mar de diferenças que os separam, uma série de pontos em comum: ambos, provavelmente no auge das suas carreiras no que toca a reconhecimento do público e vendas de discos, nunca tinham actuado em Portugal e partilham a reputação de proporcionar boas actuações ao vivo. Considero também os dois primeiros discos de cada um os melhores das suas carreiras, tendo marcado indelevelmente a(s) época(s) em que foram editados.

O povo português tinha, naturalmente, uma fome incrível da prestação dos grupos em formato «live» e compareceu em força aos espectáculos. Entusiástico, receptivo e participativo, o público tuga esgotou as lotações do Pavilhão Atlântico e do estádio do Restelo.

Criei altas expectativas em torno da actuação de Jay Kay e companhia, se calhar porque tive a oportunidade de assistir em Londres ao que julgo ter sido o último «gig» da digressão de «Travelling Without Moving» e gostei muito do que vi e ouvi.

Quanto a Lenny Kravitz, sinceramente nivelei a coisa bem por baixo, quanto ao que esperava encontrar: o material por ele editado nos últimos discos baixou francamente o nível a que nos tinha habituado e a ideia de concertos em estádios já não me agrada sobremaneira.

As contas, no entanto, saíram-me trocadas e acabei por apreciar mais o concerto do homem do frouxo «Stillness of Heart» do que o que nos ofereceu o responsável pelo funk dançante de «Little L». Mais uma vez, se calhar a «culpa» é mesmo do tal concerto em Londres, cujos «special guests» eram «só» eram Neneh Cherry, Pharcyde e Erykah Badu (grávida e linda de morrer)...

Depois disso, este espectáculo em Lisboa soube a pouco: a banda que agora acompanha Jay Kay está bem diferente e se o incontornável baixista Stuart Zender faz muita falta, um DJ, o «homem do didgeridoo» ou uma boa secção de metais também deixam muitos espaços por preencher num set que se quer «tocado» e com feeling de jam.

Claro que não é necessário estarem trinta macacos em cima de um palco, o que realmente importa é que as pessoas que lá estão tenham o que é preciso – chamemo-lhe simplesmente de feeling – e a sensação com que ficamos depois de ver, por exemplo, o guitarrista desta formação é a de que este é um daqueles músicos de estúdio, «de aluguer», praticamente irrepreensíveis tecnicamente, mas sem um pingo de inspiração ou presença (pois, isso mesmo) merecedoras das músicas que ali interpretou.

Faltaram temas dos primeiros discos, mas mais do que tudo, faltou espírito de banda, de equipa... Talvez por causa disso, da falta de «acompanhamento», Jay Kay esteve bem, mas algo aquém do que está ao seu alcance, o que está longe de significar que tenha dado um mau concerto. Foi apenas um menos bom. Aliás, tratando-se de quem se trata, tal só poderia acontecer se o homem estivesse doente. O público dançou que se fartou e teria dançado a noite toda se lhe tivessem permitido.

Ao contrário do que aconteceu com Jay Kay, a banda que acompanhou Lenny Kravitz no estádio do Restelo é praticamente a mesma desde as suas primeiras andanças. E isso nota-se perfeitamente na cumplicidade entre todos os elementos em palco, que, diga-se de passagem - à semelhança dum Austin Powers - parecem ter sido congelados no tempo, conservando todo o groove tão característico dos finais de sessenta, princípios de setenta.

O concerto foi bem pensado (se não, saiu bem!) e geriu bem a exploração das várias fases da carreira do cabeça-de-cartaz, contrabalançando temas do primeiro e segundo discos com hits mais recentes: mesmo que um tema como «American Woman» não me diga nada de especial, a seguir a «Fields of Joy» refinado ouve-se bem melhor... A banda é de facto, um luxo, e marcou muita diferença – já não há pachorra para solos de guitarra, irritam-me solenemente, mas o que é facto é que curti largo os solos do guitarrista de Lenny Kravitz, enquanto que os solos do guitarrista dos Jamiroquai cansavam quase imediatamente. Houve show off q.b. em ambos os lados, bem como perícia a rodos, mas o sentimento é outra história, completamente diferente...

Surpresa da noite no Restelo, pelo menos para mim que não sou grande apreciador da cantora, foi a presença da senhora Gray. Fugaz, mas muito marcante. Quem não se rendeu ao seu à vontade desarmante, à sua sensualidade à flor da pele, que destila sexo por tudo o que é sítio? Macy é uma verdadeira freak do funk, à boa maneira do padrinho do P-Funk, George Clinton, homenageado com a interpretação de «One Nation Under a Groove», no meio de uma desbunda da banda que acompanha a voz de «On How Life Is» (uma espécie de «New Power Generation» dos anos 2000, com um guitarrista que a sabe toda). O que esperar de um concerto de Macy Gray a outras horas, sem pressas, e num outro espaço, mais convidativo à intimidade de sons e boas vibrações? Coisas boas, seguramente.

No meio das mais variadas reacções de quem como eu assistiu aos concertos de Jamiroquai e Lenny Kravitz, a que mais me espantou foi a de uma amiga que conhece mais e melhor do que eu a música do segundo, nutrindo por ela (ou por ele...) um carinho muito especial. Achou a performance do seu «ídolo» e da banda em geral algo pachorrenta e considerou haver falhas imperdoáveis no alinhamento escolhido, tendo apreciado mais o «gig» dos Jamiroquai...

Será, afinal, tudo uma questão de expectativas?

P.S: Uma coisa é praticamente certa, quaisquer que fossem as expectativas de ambos os músicos quanto ao público português, estas devem ter sido largamente ultrapassadas, a julgar pelas expressões estampadas nas suas caras. Quando Kravitz comentou, a meio do espectáculo, que demorou 13 anos para vir tocar a Portugal, uma espirituosa fã atirou prontamente, em jeito de resposta: «Nem sabes o que perdeste!» Agora já sabe... Venham mais, e mais vezes. Não nos ralamos nada!

in Disco Digital

Comentários

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Escrito por: Jena Ricci | Sábado, 21 Abril 2007

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Escrito por: Britney | Quinta, 26 Abril 2007

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