Quarta, 13 Março 2002

«Whoa»

Pela primeira vez desde que me lembro, este ano estava a torcer por alguém na entrega anual dos Grammys. Afinal de contas, o universo desses prémios parece tão longínquo e inatingível aqui da Tuga...

Nesta edição tínhamos presenças incontornáveis, como a da estreante prodígio Alicia Keys ou de India Arie. Estes foram alguns dos nomes que vieram mais facilmente à memória. Ambas as vozes e pessoas me cativaram, de diferentes maneiras, no ano que passou.

Se tivesse de dar preferência a alguma delas, nas categorias em que concorreram directamente entre si, teria certamente muita volta a dar à cabecinha...

Nunca senti os Grammys como algo relevante para mim, um pouco à semelhança dos Óscares. Apesar de me parecer que o factor qualidade na atribuição destes últimos é bem mais questionável.

De qualquer forma, é tudo muito giro, mas apesar disso acabo por ter uma disposição naturalmente diferente quando se trata de saber quem ganhou o quê nos «pobrezinhos» - mas nossos - Prémios Blitz do que conhecer a quem calhou igual «sorte» nos MTV Awards ou nos Grammys, os quais estão ligados à razão de ser desta crónica, relacionada com um apelido bem português: Furtado.

A belíssima Nelly Furtado. Nomeada pela primeira vez em várias categorias. A saber: Música do Ano, Melhor Novo Artista e Interpretação de Voz Pop Feminina com o álbum de estreia «Whoa Nelly».

A competir com os nomes acima referidos estava a «nossa» Nelly Furtado. E nós a torcer por ela. Não tenho (ainda) o disco em casa, nem sou especialmente conhecedor da carreira de Nelly. Aliás, a primeira vez que ouvi «I´m Like a Bird», o tema não me disse nada de novo.

Acompanhado por um bom vídeo e imagem cuidada - e sem dúvida atraente - , fiquei com a sensação de que o primeiro single ficava aquém do que se podia esperar de alguém que tinha sido assinado pela Dreamworks. Se por um lado tinha todos os ingredientes para se dar bem comercialmente, a primeira amostra não conseguia, contudo, deixar descortinar qual a diferença que a luso-canadiana marcava em relação às demais sonoridades do mundo pop.

Porém, as dúvidas que tinha em relação ao que estava ao alcance de Nelly foram completamente desfeitas quando saiu a remistura para «Get Ur Freak On», da manda-chuva Missy Elliot... Fiquei de queixo caído.

Afinal de contas, se pegar num tema tão delicado como esse – no qual a magia da dupla Timbaland/Missy atinge o melhor da sua forma - e conseguir não o estragar é obra. Acrescentar-lhe algo de relevante é obrão. Ainda por cima quando se fala de uma «novata». Missy agradeceu e nós também.

Se à primeira vista a referida colaboração me pareceu algo improvável, cedo percebi que o à-vontade demonstrado por Nelly em «Get Ur Freak On» não se devia a um «lucky shot», mas ao simples facto de ela ser uma inveterada apreciadora de hip-hop e da sua cultura. Elementos que não passariam depois despercebidos, nomeadamente nos singles que se seguiram a «I’m Like A Bird», através da presença de um DJ nas apresentações ao vivo ou mesmo na própria atitude da cantora.

Foi, contudo, a sua simplicidade desarmante e a paixão por Portugal que me fizeram render ao charme da «Portuguese Diva», como a própria se auto-intitula na remistura de Missy. É um dado adquirido que Nelly, apesar de mal conhecer a sua terra-mãe (mais dos seus pais do que sua), nutre por ela um carinho especial.

Mas, uma coisa é vir a Portugal e nas entrevistas dizer que sim. Que gosta muito disto. E que até conhece umas bandas. Inclusive dizer os nomes de algumas. Tudo num português adocicado. Fica sempre bem. O povo gosta e não custa nada.

Outra coisa é mostrar bandeiras em vídeos com alta rotação na MTV e televisões internacionais ou falar de um site luso–canadiano na revista «The Source», pilar incontornável da cena hip-hop norte-americana.

Bem diferente ainda é apresentar as nomeações de uma das categorias presentes nos MTV Awards em Português, para estupefacção do co-apresentador e do público em geral.

Em especial quando o também «nosso» Luís Figo, ao agradecer o famigerado prémio de Jogador do Ano atribuído pela conceituada revista de desporto «Onze» (diz quem viu e ouviu) o fez em espanhol...

Torci por Nelly Furtado nos Grammys e fiquei sinceramente contente quando soube que ganhou na categoria «Female Pop Vocal Performance» com «I’m Like a Bird». Fiquei contente pela música, a pessoa e o orgulho de (também) ter sangue português. Portuguese Diva? Most definitly. Definitivamente. Ou como diria Figo: «Por supuesto!».

 in Disco Digital

Comente