Segunda, 18 Fevereiro 2002

O Elvis do Rap(?!) fê-lo de novo...

Eminem, o mais recente enfant-terrible da história do hip-hop conseguiu alcançar em coisa de três ou quatro anos aquilo que levaria muito mais tempo a qualquer outro rapper/entertainer/performer da cena hip-hop norte-americana alcançar, e mais ainda: não serão apenas as vendas astronómicas, os prémios e as portas do mainstream completamente escancaradas a entrar nesta equação, o facto mais importante a reter será porventura a maneira como foi aceite pela América branca e conservadora e consequentemente aceite pelo Mundo Branco e Conservador, tanto que a primeira vez que entra no não tão acessível proto-mundo cinematográfico de Hollywood (falem cinco minutos com Spike Lee...), fê-lo pela porta grande, como protagonista de «8 Mile», filme realizado pelo Curtis Hanson de «L.A. Confidential», dividindo o écran com pesos-pesados da indústria como Kim Basinger.

«8 Mile» constitui a razão de ser destas linhas, pela positiva surpresa que constituiu a sua visualização. Por esta altura a maioria do público interessado já terá visto a estreia do rapper no cinema, mas eu, por várias razões - como os previsíveis putos e pitas a fazerem alto estrilho durante as sessões no cinema do Fórum Almada - deixei as primeiras semanas de exibição passar para o fazer. Entretanto fui ficando com uma ideia que não se assemelha, de todo, com a realidade do filme: O trailer pode enganar um pouco, bem como a banda sonora.

Aquilo que à primeira vista parecia ser um mero veículo para o brilho da popstar (há dúvidas?!), aproveitando para explorar a sua biografia e pouco mais, acaba por se revelar um trabalho bem interessante. Não há momentos teledisco em «8 Mile» e quando Eminem rima, fá-lo em registo freestyle nos diversos campos de batalhas de rap, no palco e fora dele - mostrando assim uma das vertentes mais essenciais e verdadeiras do hip-hop.

Os freestyles que o rapper Rabbit (personagem interpretada por Eminem) debita, bem como os que os seus oponentes metralham nas batalhas, dizem muito mais sobre a cultura dos mc’s do que muitos documentários e ensaios que abundam no meio, proporcionando momentos a um tempo hilariantes, agressivos e lúdicos.

Ao ver o filme não pude deixar de me lembrar de algumas sessões de microfone aberto no Johnny Guitar às quinta-feiras, durante as sessões do programa de rádio «Ataque Verbal» (que fiz em parceria com K.J.B.) promoveu em 1995. Antes das coisas darem para irremediavelmente para o torto - que é como quem diz porrada de meia-noite até a noite ter de ser definitivamente encerrada - houve momentos que ficaram na memória dos presentes para sempre, as tais dicas de batalha como: «Mc´s de quinta-feira, mc´s de brincadeira... vocês são mc cigarro, eu sou mc charro», entre tantas outras, em noites que o Jorge (a.k.a. Jazzy Jay, ex-Zona Dread) improvisava sozinho durante mais de meia-hora...

Com tudo o que tem de bom e de mau, esse assume-se como um dos aspectos mais intrínsecos do hip-hop e «8 Mile» ilustra-o perfeitamente. Ao contrário do que a insípida banda sonora (excepção feita ao tema-titulo e a mais um ou outro) editada nos mostra, a música que pode ser escutada no filme tem temas bastante caros aos ouvidos dos afectos do rap, sendo fornecida por nomes como Notorious BIG ou The Pharcyde. O tema que, por exemplo, acompanha a sequência inicial e cujo instrumental também serve de base para a derradeira batalha de Rabbit é nada mais nada menos do que o clássico underground «Shook Ones pt.II», dos Mobb Deep.

Quanto aos aspectos autobiográficos, além do obviamente inevitável facto de se tratar da história de um rapper branco (que - tal como Eminem – representa o que os americanos gostam de chamar white trash dos trailer parks) a tentar a sua sorte num meio predominantemente negro e de a acção se passar em Detroit, as semelhanças (pronto, ok, não são assim tão poucas!) ficam-se por aí. Por exemplo, os personagens-chave da mãe e da criança não têm nada a ver com o que o agora actor nos deu a conhecer da sua vida pessoal.

Por tudo isto, «8 Mile» acabou por ser, pelo menos para mim, uma agradável surpresa. No entanto, não se pode deixar de pensar por que motivo Hollywood levou tanto tempo para fazer um filme sobre o hip-hop (nem me falem em «Save The Last Dance»!!!) e quando o faz escolhe um realizador e um protagonista brancos. Isto sem qualquer demérito para Eminem, que tem em «8 Mile» uma excelente intepretação, sem máculas e passou por muito para chegar onde chegou, sendo detentor de um óbvio talento que lhe faz merecer todo o seu sucesso. A questão é que continuamos a fazer a música, mas não nos deixam entrar na discoteca... Só para clientes habituais.

in Disco Digital

Comentários

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Escrito por: fabiola-is | Segunda, 21 Abril 2008

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