Da Weasel

Nasceram num quarto, em Almada, quando é habitual as bandas de amigos nascerem em garagens. Dois irmãos angolanos de nascimento, cabo-verdianos de raiz e portugueses de nacionalidade começaram a fazer uma música elegante, com bom gosto e muito ritmo. Os temas da banda são de intervenção mas vão até um surrealismo cru. Andam no "top" ou lá perto. Mas nunca fizeram concessões à facilidade. Cuidado com este sexteto de doninhas urbanas! Jay Jay, o baixo da banda e compositor, chegou a Almada com quatro anos, vindo de Luanda. O seu irmão Pac (voz e letras), com apenas sete meses, vinha no colo da mãe. Fazem parte de uma família cabo-verdiana que fugiu da guerra, em 1975. Os pais eram funcionários públicos, ao serviço do Estado Português, em Angola. Desses anos de brasa não ficou réstia de memória. Mas nas veias de Jay Jay correm os ritmos da música urbana que se fazia em Luanda, desde que nasceu até à sua partida: Kiezus, Jovens do Prenda ou David Zé e Sofia Rosa. Pac é um crioulo tão crioulo que fica bem na galeria dos Flagelados do Vento Leste e não desmerece dos B. Leza, Silva Tavares ou Onésimo da Silveira. O miúdo é tão grande como os maiores. "Eu e o meu irmão tínhamos o quarto forrado com as capas dos discos dos projectos que mais gostávamos, ouvíamos tudo em inglês, adorávamos música. Fomos crescendo neste ambiente e quando já éramos uma banda de quarto, gravámos uma maquete e fomos levá-la à Rádio XFM. Eles puseram aquilo no ar. Foi o primeiro sinal da banda." (Jay Jay) Pac escrevia as letras em inglês, cantava em inglês, pensava em inglês e sonhava em inglês. Mas no primeiro álbum da banda - "Dou-lhe com a Alma" - a língua dominante já era o português. "Comecei a escrever e a cantar em português mais por pressões exteriores do que por vontade própria. As minhas referências eram em inglês, os meus ídolos cantavam em inglês e eu queria imitá-los. De repente compreendi que escrever e cantar na Língua Portuguesa fazia mais sentido. É a língua da nossa vida e com ela chegávamos mais rapidamente às pessoas. Desenvolvemos uma linguagem urbana que na música não existia, levámos o calão do quotidiano para os nossos temas. Aquilo era um terreno virgem! No hip hop e seus derivados fomos os primeiros a escrever em português." (Pac) O líder do grupo diz que essa aventura agora é apenas uma agradável recordação, mas há dez anos foi um tiro no escuro, que podia ter condenado a banda a tocar o resto da vida num quarto de um prédio de Almada: "as nossas letras eram demasiado cruas e frontais e isso na Rádio não pode passar. Mas a verdade é que passou, derrubámos barreiras e sobrevivemos porque tentamos ser, a cada momento, verdadeiros e genuínos. Já chegámos a dois discos de ouro e prata", diz Jay Jay. Sopa de Pedra. O último álbum da banda "Re-Definições" já vendeu 40 000 cópias em pouco mais de três meses. É a consagração de uma banda que muito boa gente aponta como a melhor do universo rock português. O mais recente trabalho dos Da Weasel é, segundo Jay Jay, "o resultado de um reajustamento imprescindível à nossa sobrevivência como banda. Se não houver desenvolvimento cultural, se não reinventamos as coisas no nosso dia a dia, se não procurarmos permanentemente uma nova dimensão para a música e para a poesia, estacionamos no terceiro capítulo (referência a um dos álbuns de maior sucesso da banda) e nós não queremos parar, temos de estar sempre em mutação". Pac esclarece melhor: " temos bases musicais muito sólidas, o conceito da banda é o mesmo desde o princípio, uma mistura de coisas diferentes que coincidem em qualquer coisa". Jay Jay dá um exemplo: "somos um caldeirão onde fazemos de cada tema uma sopa de pedra, não temos problema nenhum em mudar e assimilar coisas novas. O caldeirão e a pedra são sempre os mesmos, os ingredientes é que variam e às vezes variam muito." Numa primeira fase a banda embandeirou nas questões sociais e houve quem falasse em música de intervenção. Os anos passam e os Da Weasel, naturalmente, adoptaram esse discurso contestatário e cooptaram para os seus temas uma linguagem urbana que não vem nos dicionários nem se aprende nas escolas: "nós somos assim mesmo, isto não é uma pose nem uma moda, mesmo que um gajo não queira muito, vai sempre bater ao mesmo. É a nossa cultura", diz Jay Jay. Uma cultura crioula que começa nas ruas de Almada, nos dormitórios da margem esquerda do Tejo, na multidão de emigrantes e passa pelas ilhas de Cabo Verde, afundadas no oceano à vista da costa de África, e acaba em Luanda, a terra vermelha onde tudo começou. Sentimento. "Os temas a que me agarro são os valores intrínsecos da moral judaico-cristã. Acredito que somos todos iguais e temos direitos iguais, amamos o próximo e somos solidários. Mas depois vejo que estes valores descambam para direcções muito diferentes e isso mexe comigo. As minhas letras têm tudo a ver com estas contradições." (Pac) A música dos Da Weasel impõe-se pela qualidade, o bom gosto, o ritmo, a originalidade. O que eles fazem não é música a martelo nem um sub-rock de consumo para vender cervejas. Jay Jay diz que "nunca seremos pessoas de grande cultura política mas fazemos questão de enviar ao público uma mensagem o mais profunda possível, com sentimento, e é isso que sabemos fazer, não andamos a armar-nos em parvos fazendo de conta que somos o que não somos". O quotidiano dos membros da banda cruza-se com os dramas da emigração clandestina, a marginalidade, a delinquência juvenil, a segregação. Mas também com uma nova cultura, novos hábitos, novas linguagens. Tudo isso está espelhado no trabalho final dos Da Weasel. Talvez por isso, desde a edição do primeiro álbum até hoje, tem havido grande rotação de músicos. Jay Jay não vê qualquer drama nisso: "nós sabemos o que queremos da vida e que estilo de música nos interessa. Mas a música tem que ser sentida e se há alguém na banda que não sente a música que a maioria está a fazer, não está lá a fazer nada". A banda este Verão fez o Festival de Paredes de Coura e o Festival do Sudoeste, na Zambujeira do Mar. Tocou em vários pontos do país, onde apresentou o último álbum e, inevitavelmente, o sucesso de sempre, "God Bless Johnny", um tema que vem do primeiro "EP", gravado em 1994. Desde que a banda nasceu no quarto de dois jovens adolescentes, num prédio de Almada, até hoje, já conquistou dois discos de prata, um de ouro e está rapidamente a caminho do segundo. Tem um clube de fãs "que é uma comunidade que gosta de nós e discute a nossa música, às vezes de uma forma cruel, não é um clube de fãs fatela", diz Pac. Carlos Nobre (Pac), voz, letras, Bruno Silva (Virgul), voz, João Nobre (Jay Jay), baixo, compositor, Miguel Santos (Glue), DJ, Guilherme Silva (bateria) e Pedro Quaresma (guitarra) são os membros de um sexteto que se chama "weasel" (doninha) porque, segundo o líder, "nós tocamos temas mal cheirosos. Esta é a definição mais romântica que posso dar". João Nobre é licenciado em marketing e publicidade. É ele que cuida a imagem do grupo e nada se faz, mesmo no "site" da internet, sem a sua apreciação técnica e aprovação. O resultado é um trabalho cuidado e uma banda que apesar de já ir em dez anos de existência, continua no "top", indiferente às modas. Doninhas citadinas. A banda Da Weasel nasceu em 1993 mas só um ano depois editou um "EP". O êxito foi tão grande que no ano seguinte gravou o primeiro álbum, "Dou-lhe com a Alma". O "3º Capítulo" veio em 1997 e foi disco de ouro. O tema "todagente" tornou-se uma bandeira da banda. Só em Setembro de 1999 as "doninhas" citadinas voltaram aos discos com "Iniciação de uma vida banal - o Manual". No ano de 2001, gravaram aquele que é considerado um dos melhores discos da banda: "Podes fugir mas não te podes esconder". Em 2004, publicaram "Re-Definições", um disco que está a caminho do ouro. Pelo meio ficaram centenas de concertos e participações em discos de outros artistas. Os Da Weasel imprimiram aos seus temas uma forte componente de intervenção: "há quem costume falar de revolução/mas a revolução não vai ser transmitida na televisão". Pois não. Pelo contrário, o pequeno ecrã até está noutro ramo de negócio: "vida privada tornada pública, a nova pornografia/ Disponível em horário nobre todo o santo dia./Em tempos de competição feroz, a TV é o algoz". Há uma multidão de gente que fala a linguagem das doninhas, que as compreende, que vibra com elas. Pac sabe bem que tem companhia: "há quem diga que sou gerente mas nisto sou mais que patrão/Mando, posso, faço e desfaço/a doninha está de volta, rija como o aço". Sentidos alerta, vem aí nova pedrada: "aquele beat que gostavas de fazer/(mas) não tens engenho para o conceber/Aquele flow que escorrega melhor que vaselina/que deixa molhada a menina da menina/Aquele som que prova que não é acidente/tem o dom de mover muito boa gente/Aquela letra que vais odiar - /fala uma verdade dura de aceitar/Aqueles manos que partem a loiça toda/Não aguentas mas que se foda/Manda vir mais um bocado/vê o meu ar de ralado/Pára escuta olha e sente". Um binómio fraterno está na base da banda. Jay Jay escreve as músicas e Pac as letras. Apesar da linguagem dura, há poesia nas doninhas. E afinal, a poesia é a matéria prima de quem se aventura nos caminhos da música. Oiçam só estas palavras, ao ritmo do hip-hop: "neste baile de máscaras onde toda a gente dança/homem que baila por gosto às vezes perde a esperança/Mas há a voz de Gil-Scott/a música de Jobim/a força de mil homens bem dentro de mim/agarro-me a ela - a tudo o que encerra, tenho o verbo comigo/e uma alma que berra: Novas estradas e força para as abrir/Novos dias e calma para os sentir". Há um mundo aqui ao lado, habitado por gente de carne e osso, que se nos escapa por entre os dedos. As doninhas captaram os heróis desse mundo que tanto é subterrâneo como etéreo. Como se ouve, entre muitas outras coisas, na "Canção do Carocho": "chibos interesseiros. Intrujas manhosos./Bacanos desorientados à espera d'algo, sem saber o quê ao certo,/mas com a certeza de que o saberão quando a cena finalmente surgir". (...) Barracos impregnados com aquele ar nauseabundo./Muletas ligaduras hematomas sangue coagulado./O cheiro, não se consegue afastar o cheiro./Surgem vozes de todo o lado: - "Boa branca", "boa castanha", "serenal", "Paxilfar", "prata", "bombas", "amoníaco", "sai do meio da rua e encosta à parede",/"filho da puta do carocho só faz é merda!"/Vai fechar a loja mas o puto não comprou nada,/não comprou nada/não comprou.../São duas da manhã mas a loja tá aberta, como sempre./Seja natal ou fim de ano, o negócio não pode parar. (Disponível num centro perto de si). Dinheiro puxa dinheiro como vício puxa vício... Enquanto houver gente a comprar, vai haver gente a vender/enquanto houver gente a vender, vai haver gente a comprar.../O bicho já apanhou mais de metade dos consumidores/mas sabes bem que a fruta dos contentores dá moca e tira as dores/faz voar sem sair do chão e afinal de contas/quem é que não gosta da sensação da..../- "Boa branca", "boa castanha", "serenal", "paxilfar", "prata", "bombas", "amoníaco", "sai do meio da rua e encosta à parede",/"filho da puta do carocho só faz é merda!"/Vai fechar a loja mas o puto não comprou nada,/não comprou nada/não comprou..." As doninhas vivem no meio de janados ou heróis, que têm uma certeza: "Nunca vamos ter o amor a rir para nós. Ao menos dêem-lhes música."

in SPA - Sociedade Portuguesa de Autores