Quinta, 07 Novembro 2002

Não abram a pestana, não...

Sempre que tenho tempo gosto de fazer mix-tapes. Os tempos mudaram e agora faço-as em mini-disc. Para mim são essenciais, porque quando ando na rua quase sempre o faço de headphones nos ouvidos. Ou então quando estou na estrada com a bandola, uma vez que não podemos passar sem música e o formato mix-tape é sem dúvida o mais recompensador ao fim de horas de audição, talvez porque maça menos, diversifica, etc, etc...

Pois bem, uma das últimas mixes que fiz (sem pretensões de DJ, limito-me a gravar as músicas sem as misturar mesmo...) surpreendeu-me sobremaneira: quando acabei de a gravar dei por mim com quatro nomes portugueses lá metidos. Com mais do que uma música de cada um. Para ser sincero não me lembro de alguma vez tal coisa ter acontecido.

Gosto de música portuguesa e ela aparece nas minhas compilações, mas acho - ou melhor, tenho a certeza - de que foi a primeira vez que numa só encaixei quatro tugas, sinal de que as coisas boas não estão a aparecer de seis em seis meses.

A saber: Valete, com o álbum «Educação Visual»; Gutto, com temas do disco «Private Show»; Zedisaneonlight, em registo homónimo; e Fuse, com o álbum «Informação ao Núcleo», o único registo de 2001 no pacote.

No campo do hip-hop estamos bem. Se o acentuado sotaque nortenho de Fuse e as suas rimas densas e refinadas podem já não ser novidade para muita gente - os seus Deallema são um dos projectos mais conhecidos na cena tuga -, Valete surge numa excelente revelação: «Educação Visual». Este é, a par de «Sobre(tudo)» de Sam The Kid, um dos discos mais estimulantes do ano: rimas inteligentes, lúdicas, interventivas, com um bom flow e beats bem esgalhados.

Valete é (muito bem) acompanhado em boa parte do disco por outro rapper a prestar atenção, Bônus, contando ainda com várias participações tanto de mc’s (Sam The Kid, Chullage, Ace, Fuse, Adamastor) como de produtores (Kilu, Bomberjack, Sam the Kid, Bambino) e scratches de top e dj’s como Cruzfader. Começo auspicioso este o de Valete...

Quem não é propriamente novo em termos de gravações e edições é Gutto. O ex- Black Company comete a façanha de lançar o primeiro risco de r&b português, na linha, por exemplo, do que será feito nos Estados Unidos por um Montell Jordan. Arriscado? Muito. Não sei até que ponto é que os portugueses estão preparados para r&b feito em português. Certo, certo é que o resultado do empenho de Gutto em «Private Show» é muito bom.

O álbum é produzido pelo próprio e por Boss Ac (que tem o sucessor de «Manda-Chuva» prestes a ser editado), duas pessoas que já andam aqui há tempo suficiente para saber fazer o que querem praticamente sem mácula. Temos «Playa»...

Os Zedisaneonlight possuem um disco que investe numa fusão de vários sons diferentes, os quais têm em comum um certo groove de feel free, sei lá como definir, uma cena meio freak... Dois temas impedem-me por enquanto de conhecer o resto do disco, porque tou embicado neles: o single «Give you my(love) e «Feel no Fear», que nos dão a conhecer a uma voz fabulosa de requintes jamaicanos rodeadas de boas vibrações.

No meio disto tudo onde andam os media? O que é que as rádios (excepção honrosa à Ant3na) andam a fazer? Não foi através deles que estes discos me chegaram às mãos. Uns procurei, outros, por mera sorte... Não abram a pestana que não é preciso...

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Quarta, 11 Setembro 2002

Who´s The Nerd?

Uma noite destas, ao fazer zapping, dei por mim a ver um vídeo, que suponho ser novo, da Britney Spears. A produção musical não andava longe do que se pode ouvir em «Sweat» (acho que é esse o nome do single). Ou seja, o som característico da dupla de produtores Neptunes, que com mais um amigo compõem os N.E.R.D.. Até aí tudo bem. Não há novidade. Mas desta vez a coisa é diferente. Desta vez Pharrel Williams faz parceria com a dita cuja. Empresta a voz ao tema e bebe copos com ela ao balcão de uma discoteca no teledisco, cujo tema faz parte da banda sonora do terceiro filme de «Austin Powers». Merda. Caiu mal. Passei uns minutos a digerir a coisa. E lembrei-me das razões porque gostava tanto dos Neptunes e dos Nerd, não só da sua música mas também da sua atitude. Rewind, por favor.

A primeira vez que ouvi uma produção dos Neptunes foi num mini-disc enviado por um amigo que vive na Holanda. Uma mix-tape de R&B e Hip-Hop, sem nomes das faixas e autores. Ao lado do tema de Old Dirty Bastard «Baby I Got Your Money» - que conhecia perfeitamente sem no entanto saber que também era produzido pelos mesmos - estava uma das canções mais frescas de hip-hop que andavam a circular no momento.

O tema era de Capone´n´Noreaga, mas não se assemelhava a nada que tivesse ouvido deles. Os beats e estrutura da música, bem como os sons utilizados eram tudo menos normais. Tão inovador como Timbaland, sem ser parecido.

Quando através da letra me apercebi quem eram os responsáveis pela produção comecei a descobrir os Neptunes: Através das mais variadas remisturas e produções de hip-hop: o fenómeno Kelis, sua «apadrinhada», que conseguiram meter a cantar no tal tema de Old Dirty Bastard. A partir daí foi o que se sabe - um artigo na «The Face» que finalmente os mostrava como são: fora. Fora do quê? De todos os estereótipos do hip-hop. Fora de qualquer estereótipo.

Os produtores do momento de hip-hop eram dois gajos magros com tatoos meio xungas, calças de ganga justas, t-shirts de Led Zeppelin e AC/DC, sem a mínima «preocupação» com a imagem. Não vinham de Nova Iorque ou de Los Angeles, mas sim dos confins da Virginia... E confessavam à revista inglesa que eram vistos como «freaks» nos Estados Unidos.

Fazia todo o sentido - não pude deixar de me rir quando me imaginei a ver as caras da malta do hip-hop... A atitude era despreconceituosa: como os próprios mais tarde disseram no press release do álbum dos N.E.R.D. (já lá vamos), não tinham medo de dizer que gostavam dos Queen, por exemplo. Não tinham medo de assumir que nos seus tempos de escola eram vistos como «nerds», e que isso não tinha nada de mal, apenas demonstrava uma falta de capacidade dos outros para aceitar as suas diferenças - que se viriam a revelar preciosas, dizemos nós.

O trabalho não parou e depois de produzir quase tudo dentro desse campo, desde o underground dos Beatnuts até ao mainstream de Puff Daddy, os Neptunes foram chamados por nomes do mais plástico do que é feito na música dos Estados Unidos. Exemplos: N’Sync, Britney Spears e o «Rei da Pop». Aceitaram os convites e fizeram o seu trabalho, sempre com o mesmo entusiasmo. Pérolas a porcos? Não sei. Sei que pelo menos consegui ouvir a «virgem» B.S. de outra maneira, com beats diferentes e arranjos arrojados. E porque não? Melhor assim.

Pelo meio disto tudo os Neptunes tinham sede de gravar um álbum a que pudessem chamar «seu. Junto com um amigo de infância criaram os N.E.R.D.(No one Ever Really Dies) e gravaram o excelente «In Search Of...»... duas vezes. Tudo porque, segundo consta, ao ver os No Doubt a gravar em estúdio com instrumentos «reais», ficaram entusiasmados com as possibilidades de redescoberta da sua música e decidiram retirar do mercado a primeira edição do disco e regravá-lo com instrumentos. Que se foda! Podemos fazer, fazemo-lo. E fizeram-no.

Tenho as duas edições e gosto de cada uma da mesma maneira, porque se alguns temas ganham na primeira aposta, o mesmo acontece na segunda. Gosto da atitude dos N.E.R.D., das suas improváveis fusões: de hip-hop com... rock sinfónico se lhes der na telha, não porque é diferente, mas porque conseguem fazê-lo soar bem. Nasceram para isso.

Por isso, pensando melhor, que se foda se Pharrell Williams fez uma parceria com a Britney Spears. Ao menos consegue fazê-la soar bem. E, mesmo que não se partilhe dessa opinião, ninguém corta feelings a ninguém. Certo, certo é que os No Doubt têm aí a rodar a melhor música que já se lhes ouviu, «Hellagood». Vá-se lá saber porquê... será da produção?! So, Who’s the Nerd?

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Quinta, 13 Junho 2002

Uma questão de «acompanhamento»... ou de expectativa?

Os dois últimos concertos a que tive oportunidade de assistir em Lisboa – Jamiroquai e Lenny Kravitz – tiveram, apesar do mar de diferenças que os separam, uma série de pontos em comum: ambos, provavelmente no auge das suas carreiras no que toca a reconhecimento do público e vendas de discos, nunca tinham actuado em Portugal e partilham a reputação de proporcionar boas actuações ao vivo. Considero também os dois primeiros discos de cada um os melhores das suas carreiras, tendo marcado indelevelmente a(s) época(s) em que foram editados.

O povo português tinha, naturalmente, uma fome incrível da prestação dos grupos em formato «live» e compareceu em força aos espectáculos. Entusiástico, receptivo e participativo, o público tuga esgotou as lotações do Pavilhão Atlântico e do estádio do Restelo.

Criei altas expectativas em torno da actuação de Jay Kay e companhia, se calhar porque tive a oportunidade de assistir em Londres ao que julgo ter sido o último «gig» da digressão de «Travelling Without Moving» e gostei muito do que vi e ouvi.

Quanto a Lenny Kravitz, sinceramente nivelei a coisa bem por baixo, quanto ao que esperava encontrar: o material por ele editado nos últimos discos baixou francamente o nível a que nos tinha habituado e a ideia de concertos em estádios já não me agrada sobremaneira.

As contas, no entanto, saíram-me trocadas e acabei por apreciar mais o concerto do homem do frouxo «Stillness of Heart» do que o que nos ofereceu o responsável pelo funk dançante de «Little L». Mais uma vez, se calhar a «culpa» é mesmo do tal concerto em Londres, cujos «special guests» eram «só» eram Neneh Cherry, Pharcyde e Erykah Badu (grávida e linda de morrer)...

Depois disso, este espectáculo em Lisboa soube a pouco: a banda que agora acompanha Jay Kay está bem diferente e se o incontornável baixista Stuart Zender faz muita falta, um DJ, o «homem do didgeridoo» ou uma boa secção de metais também deixam muitos espaços por preencher num set que se quer «tocado» e com feeling de jam.

Claro que não é necessário estarem trinta macacos em cima de um palco, o que realmente importa é que as pessoas que lá estão tenham o que é preciso – chamemo-lhe simplesmente de feeling – e a sensação com que ficamos depois de ver, por exemplo, o guitarrista desta formação é a de que este é um daqueles músicos de estúdio, «de aluguer», praticamente irrepreensíveis tecnicamente, mas sem um pingo de inspiração ou presença (pois, isso mesmo) merecedoras das músicas que ali interpretou.

Faltaram temas dos primeiros discos, mas mais do que tudo, faltou espírito de banda, de equipa... Talvez por causa disso, da falta de «acompanhamento», Jay Kay esteve bem, mas algo aquém do que está ao seu alcance, o que está longe de significar que tenha dado um mau concerto. Foi apenas um menos bom. Aliás, tratando-se de quem se trata, tal só poderia acontecer se o homem estivesse doente. O público dançou que se fartou e teria dançado a noite toda se lhe tivessem permitido.

Ao contrário do que aconteceu com Jay Kay, a banda que acompanhou Lenny Kravitz no estádio do Restelo é praticamente a mesma desde as suas primeiras andanças. E isso nota-se perfeitamente na cumplicidade entre todos os elementos em palco, que, diga-se de passagem - à semelhança dum Austin Powers - parecem ter sido congelados no tempo, conservando todo o groove tão característico dos finais de sessenta, princípios de setenta.

O concerto foi bem pensado (se não, saiu bem!) e geriu bem a exploração das várias fases da carreira do cabeça-de-cartaz, contrabalançando temas do primeiro e segundo discos com hits mais recentes: mesmo que um tema como «American Woman» não me diga nada de especial, a seguir a «Fields of Joy» refinado ouve-se bem melhor... A banda é de facto, um luxo, e marcou muita diferença – já não há pachorra para solos de guitarra, irritam-me solenemente, mas o que é facto é que curti largo os solos do guitarrista de Lenny Kravitz, enquanto que os solos do guitarrista dos Jamiroquai cansavam quase imediatamente. Houve show off q.b. em ambos os lados, bem como perícia a rodos, mas o sentimento é outra história, completamente diferente...

Surpresa da noite no Restelo, pelo menos para mim que não sou grande apreciador da cantora, foi a presença da senhora Gray. Fugaz, mas muito marcante. Quem não se rendeu ao seu à vontade desarmante, à sua sensualidade à flor da pele, que destila sexo por tudo o que é sítio? Macy é uma verdadeira freak do funk, à boa maneira do padrinho do P-Funk, George Clinton, homenageado com a interpretação de «One Nation Under a Groove», no meio de uma desbunda da banda que acompanha a voz de «On How Life Is» (uma espécie de «New Power Generation» dos anos 2000, com um guitarrista que a sabe toda). O que esperar de um concerto de Macy Gray a outras horas, sem pressas, e num outro espaço, mais convidativo à intimidade de sons e boas vibrações? Coisas boas, seguramente.

No meio das mais variadas reacções de quem como eu assistiu aos concertos de Jamiroquai e Lenny Kravitz, a que mais me espantou foi a de uma amiga que conhece mais e melhor do que eu a música do segundo, nutrindo por ela (ou por ele...) um carinho muito especial. Achou a performance do seu «ídolo» e da banda em geral algo pachorrenta e considerou haver falhas imperdoáveis no alinhamento escolhido, tendo apreciado mais o «gig» dos Jamiroquai...

Será, afinal, tudo uma questão de expectativas?

P.S: Uma coisa é praticamente certa, quaisquer que fossem as expectativas de ambos os músicos quanto ao público português, estas devem ter sido largamente ultrapassadas, a julgar pelas expressões estampadas nas suas caras. Quando Kravitz comentou, a meio do espectáculo, que demorou 13 anos para vir tocar a Portugal, uma espirituosa fã atirou prontamente, em jeito de resposta: «Nem sabes o que perdeste!» Agora já sabe... Venham mais, e mais vezes. Não nos ralamos nada!

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Segunda, 08 Abril 2002

«It’s only rock and roll... but i like it»

Um amigo meu dizia que a «maior» banda de rock´n´roll do mundo eram os Led Zeppelin, mas que a «melhor» eram os Rolling Stones. Para mim, neste momento os «maiores» e os «melhores» são os Red Hot Chili Peppers.

«Neste momento» porque as bandas são como as equipas de futebol: atravessam momentos de boa e má forma. Não gosto de rótulos. E os Red Hot são grandes demais para caberem em definições estilísticas. Encarnam na perfeição o que considero ser o verdadeiro espírito do rock´n´roll, mesmo quando tocam o funk mais «Funkadelic/Parliament» que se possa imaginar.

Esse espírito é uma coisa que não dá para fingir, por mais guitarras que se partam em palco ou histórias que se inventem à volta das bandas. Nasce-se com ela e ainda não a vi à venda em lado nenhum. É uma energia que por vezes demora um certo tempo a revelar-se na sua forma mais pura, porque simplesmente não se sabe o que fazer com ela.

Às vezes é preciso, no entanto, uma «ajudazinha». No caso dos Red Hot Chili Peppers, o produtor Rick Rubin foi fundamental. Rick Rubin sabe reconhecer essa energia em estado bruto e raramente se engana nas bandas em que aposta. O caso mais flagrante será o dos Cult, que andavam perdidos com o seu primeiro disco em cenários meio góticos até encontrarem o homem das barbas gigantes. Dizem que R.R. se virou para o guitarrista e lhe «mandou» cortar o cabelo e comprar uma Gibson Les Paul. Histórias? Não se sabe.

Sabe-se, com todas as certezas possíveis nestas coisas de gostos, que o álbum que com ele gravaram - «Electric» - é um dos melhores de sempre na história do rock´n´roll recente. Foda-se! Só dá vontade de estar na auto-estrada a 300 à hora, com alto mulherão ao lado quando o ouvimos... Básico? Pois, «it´s only rock´n´roll...»

O caso dos Red Hot foi algo diferente. Tiveram como produtor George Clinton, que soube explorar todo o seu feeling punk-funk. Editaram vários álbuns. Todos com momentos de música brilhantes. «Fizeram estrada» e fartaram-se de dar nas vistas – quem não se lembra da cena «cocks on socks»? – e tiveram histórias recorrentes com o uso de drogas pesadas, sendo o mais marcante a morte por overdose do guitarrista Hillel Slovak.

A banda possuía todo o espírito rock, sim senhor, mas faltava qualquer coisa. Faltava filtrar aquela energia toda e canalizá-la na direcção certa. Foi o que aconteceu quando encontraram a pessoa certa no momento certo e gravaram «Blood Sugar Sex Magik», o álbum das suas vidas.

Despiram-se de tudo o que estava a mais e mostraram-se ao mundo na sua forma mais pura. Não é à toa que quase todas as fotos de Bruce Weber para o álbum mostram os músicos de tronco nu. Simplificaram a sua sonoridade e o resultado ficou para a história.

Depois da saída de Frusciante editaram «One Hot Minute», mas só em «Californication», com o retorno do guitarrista à família, conseguiram recuperar um pouco da mística alcançada no «Blood, Sugar...». Falo agora dos Red Hot porque comprei o DVD «Off the Map».

O disco contém material recolhido na última digressão – a de «Californication», a qual passou por Portugal. E o que podemos ver no concerto é o tal espírito de que tanto se falou. A vibração em cima do palco é tremenda, mas, acima de tudo, descontraída. John Frusciante é um excelente guitarrista, mas toca como se não tivesse consciência disso, seguindo o feeling do momento. Ao mesmo tempo que Anthony, não sendo um vocalista por excelência também não se dá conta disso e permite-se a todos os desvarios possíveis sem se preocupar muito com isso.

Temos então momentos de puro génio que contrastam com notas ao lado (mesmo «a máquina» Flea dá pregos) e «desafinanços» incríveis e tiradas desmarcadas que contrastam com momentos de poesia em estado bruto. Tudo misturado num groove contagiante que não deixa ninguém indiferente à música dos Red Hot Chili Peppers.

Porque a música é assim. Não tem de ser perfeita. Tem, isso sim, de ser sentida. E os Red Hot possuem um feeling para sentir as coisas e a boa música que fazem e partilhá-lo com os outros que não é brincadeira.

Não se aconselha, por isso, este DVD a perfeccionistas. É muito rock´n´roll... E se quiserem saber mais, há que experimentá-lo. Certas coisas mais valem ficar por dizer. Às vezes não há palavras para as definir como merecem. Eu amei. E acho que este ano, pela segunda vez, vou fazer um moicano...

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Quarta, 13 Março 2002

«Whoa»

Pela primeira vez desde que me lembro, este ano estava a torcer por alguém na entrega anual dos Grammys. Afinal de contas, o universo desses prémios parece tão longínquo e inatingível aqui da Tuga...

Nesta edição tínhamos presenças incontornáveis, como a da estreante prodígio Alicia Keys ou de India Arie. Estes foram alguns dos nomes que vieram mais facilmente à memória. Ambas as vozes e pessoas me cativaram, de diferentes maneiras, no ano que passou.

Se tivesse de dar preferência a alguma delas, nas categorias em que concorreram directamente entre si, teria certamente muita volta a dar à cabecinha...

Nunca senti os Grammys como algo relevante para mim, um pouco à semelhança dos Óscares. Apesar de me parecer que o factor qualidade na atribuição destes últimos é bem mais questionável.

De qualquer forma, é tudo muito giro, mas apesar disso acabo por ter uma disposição naturalmente diferente quando se trata de saber quem ganhou o quê nos «pobrezinhos» - mas nossos - Prémios Blitz do que conhecer a quem calhou igual «sorte» nos MTV Awards ou nos Grammys, os quais estão ligados à razão de ser desta crónica, relacionada com um apelido bem português: Furtado.

A belíssima Nelly Furtado. Nomeada pela primeira vez em várias categorias. A saber: Música do Ano, Melhor Novo Artista e Interpretação de Voz Pop Feminina com o álbum de estreia «Whoa Nelly».

A competir com os nomes acima referidos estava a «nossa» Nelly Furtado. E nós a torcer por ela. Não tenho (ainda) o disco em casa, nem sou especialmente conhecedor da carreira de Nelly. Aliás, a primeira vez que ouvi «I´m Like a Bird», o tema não me disse nada de novo.

Acompanhado por um bom vídeo e imagem cuidada - e sem dúvida atraente - , fiquei com a sensação de que o primeiro single ficava aquém do que se podia esperar de alguém que tinha sido assinado pela Dreamworks. Se por um lado tinha todos os ingredientes para se dar bem comercialmente, a primeira amostra não conseguia, contudo, deixar descortinar qual a diferença que a luso-canadiana marcava em relação às demais sonoridades do mundo pop.

Porém, as dúvidas que tinha em relação ao que estava ao alcance de Nelly foram completamente desfeitas quando saiu a remistura para «Get Ur Freak On», da manda-chuva Missy Elliot... Fiquei de queixo caído.

Afinal de contas, se pegar num tema tão delicado como esse – no qual a magia da dupla Timbaland/Missy atinge o melhor da sua forma - e conseguir não o estragar é obra. Acrescentar-lhe algo de relevante é obrão. Ainda por cima quando se fala de uma «novata». Missy agradeceu e nós também.

Se à primeira vista a referida colaboração me pareceu algo improvável, cedo percebi que o à-vontade demonstrado por Nelly em «Get Ur Freak On» não se devia a um «lucky shot», mas ao simples facto de ela ser uma inveterada apreciadora de hip-hop e da sua cultura. Elementos que não passariam depois despercebidos, nomeadamente nos singles que se seguiram a «I’m Like A Bird», através da presença de um DJ nas apresentações ao vivo ou mesmo na própria atitude da cantora.

Foi, contudo, a sua simplicidade desarmante e a paixão por Portugal que me fizeram render ao charme da «Portuguese Diva», como a própria se auto-intitula na remistura de Missy. É um dado adquirido que Nelly, apesar de mal conhecer a sua terra-mãe (mais dos seus pais do que sua), nutre por ela um carinho especial.

Mas, uma coisa é vir a Portugal e nas entrevistas dizer que sim. Que gosta muito disto. E que até conhece umas bandas. Inclusive dizer os nomes de algumas. Tudo num português adocicado. Fica sempre bem. O povo gosta e não custa nada.

Outra coisa é mostrar bandeiras em vídeos com alta rotação na MTV e televisões internacionais ou falar de um site luso–canadiano na revista «The Source», pilar incontornável da cena hip-hop norte-americana.

Bem diferente ainda é apresentar as nomeações de uma das categorias presentes nos MTV Awards em Português, para estupefacção do co-apresentador e do público em geral.

Em especial quando o também «nosso» Luís Figo, ao agradecer o famigerado prémio de Jogador do Ano atribuído pela conceituada revista de desporto «Onze» (diz quem viu e ouviu) o fez em espanhol...

Torci por Nelly Furtado nos Grammys e fiquei sinceramente contente quando soube que ganhou na categoria «Female Pop Vocal Performance» com «I’m Like a Bird». Fiquei contente pela música, a pessoa e o orgulho de (também) ter sangue português. Portuguese Diva? Most definitly. Definitivamente. Ou como diria Figo: «Por supuesto!».

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Segunda, 18 Fevereiro 2002

O Elvis do Rap(?!) fê-lo de novo...

Eminem, o mais recente enfant-terrible da história do hip-hop conseguiu alcançar em coisa de três ou quatro anos aquilo que levaria muito mais tempo a qualquer outro rapper/entertainer/performer da cena hip-hop norte-americana alcançar, e mais ainda: não serão apenas as vendas astronómicas, os prémios e as portas do mainstream completamente escancaradas a entrar nesta equação, o facto mais importante a reter será porventura a maneira como foi aceite pela América branca e conservadora e consequentemente aceite pelo Mundo Branco e Conservador, tanto que a primeira vez que entra no não tão acessível proto-mundo cinematográfico de Hollywood (falem cinco minutos com Spike Lee...), fê-lo pela porta grande, como protagonista de «8 Mile», filme realizado pelo Curtis Hanson de «L.A. Confidential», dividindo o écran com pesos-pesados da indústria como Kim Basinger.

«8 Mile» constitui a razão de ser destas linhas, pela positiva surpresa que constituiu a sua visualização. Por esta altura a maioria do público interessado já terá visto a estreia do rapper no cinema, mas eu, por várias razões - como os previsíveis putos e pitas a fazerem alto estrilho durante as sessões no cinema do Fórum Almada - deixei as primeiras semanas de exibição passar para o fazer. Entretanto fui ficando com uma ideia que não se assemelha, de todo, com a realidade do filme: O trailer pode enganar um pouco, bem como a banda sonora.

Aquilo que à primeira vista parecia ser um mero veículo para o brilho da popstar (há dúvidas?!), aproveitando para explorar a sua biografia e pouco mais, acaba por se revelar um trabalho bem interessante. Não há momentos teledisco em «8 Mile» e quando Eminem rima, fá-lo em registo freestyle nos diversos campos de batalhas de rap, no palco e fora dele - mostrando assim uma das vertentes mais essenciais e verdadeiras do hip-hop.

Os freestyles que o rapper Rabbit (personagem interpretada por Eminem) debita, bem como os que os seus oponentes metralham nas batalhas, dizem muito mais sobre a cultura dos mc’s do que muitos documentários e ensaios que abundam no meio, proporcionando momentos a um tempo hilariantes, agressivos e lúdicos.

Ao ver o filme não pude deixar de me lembrar de algumas sessões de microfone aberto no Johnny Guitar às quinta-feiras, durante as sessões do programa de rádio «Ataque Verbal» (que fiz em parceria com K.J.B.) promoveu em 1995. Antes das coisas darem para irremediavelmente para o torto - que é como quem diz porrada de meia-noite até a noite ter de ser definitivamente encerrada - houve momentos que ficaram na memória dos presentes para sempre, as tais dicas de batalha como: «Mc´s de quinta-feira, mc´s de brincadeira... vocês são mc cigarro, eu sou mc charro», entre tantas outras, em noites que o Jorge (a.k.a. Jazzy Jay, ex-Zona Dread) improvisava sozinho durante mais de meia-hora...

Com tudo o que tem de bom e de mau, esse assume-se como um dos aspectos mais intrínsecos do hip-hop e «8 Mile» ilustra-o perfeitamente. Ao contrário do que a insípida banda sonora (excepção feita ao tema-titulo e a mais um ou outro) editada nos mostra, a música que pode ser escutada no filme tem temas bastante caros aos ouvidos dos afectos do rap, sendo fornecida por nomes como Notorious BIG ou The Pharcyde. O tema que, por exemplo, acompanha a sequência inicial e cujo instrumental também serve de base para a derradeira batalha de Rabbit é nada mais nada menos do que o clássico underground «Shook Ones pt.II», dos Mobb Deep.

Quanto aos aspectos autobiográficos, além do obviamente inevitável facto de se tratar da história de um rapper branco (que - tal como Eminem – representa o que os americanos gostam de chamar white trash dos trailer parks) a tentar a sua sorte num meio predominantemente negro e de a acção se passar em Detroit, as semelhanças (pronto, ok, não são assim tão poucas!) ficam-se por aí. Por exemplo, os personagens-chave da mãe e da criança não têm nada a ver com o que o agora actor nos deu a conhecer da sua vida pessoal.

Por tudo isto, «8 Mile» acabou por ser, pelo menos para mim, uma agradável surpresa. No entanto, não se pode deixar de pensar por que motivo Hollywood levou tanto tempo para fazer um filme sobre o hip-hop (nem me falem em «Save The Last Dance»!!!) e quando o faz escolhe um realizador e um protagonista brancos. Isto sem qualquer demérito para Eminem, que tem em «8 Mile» uma excelente intepretação, sem máculas e passou por muito para chegar onde chegou, sendo detentor de um óbvio talento que lhe faz merecer todo o seu sucesso. A questão é que continuamos a fazer a música, mas não nos deixam entrar na discoteca... Só para clientes habituais.

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Sábado, 09 Fevereiro 2002

«Beleza Interior»

Pausado em Gent, na Bélgica, estou a ouvir o último CD do grande Michael Franti com os Spearhead numa sala aquecida que faz esquecer o frio que faz lá fora, com uma ajuda preciosa de um bom tinto. Além do tinto, só duas coisas me ligam neste momento à querida «tuga»: uma revista que comprei no aeroporto e um CD. É sobre este último que vale a pena falar um pouco.

O álbum chama-se «Sobre(tudo)» e pertence a Sam the Kid, um rapper/produtor de Chelas. The Kid? Sim, o Sam tem 22 anos, mas no que toca à sua paixão, no que toca a viver o hip- hop, a sentir o hip-hop e a fazê-lo respirar, o Samuel é tudo menos um puto. Eu que o diga.

Quando o conheci, cerca de 1996/97, já ele andava bem empenhado a fazer aquilo que nasceu para fazer: rimas e batidas. Na altura eu apresentava, em parceria com o K.J.B.(ex-Black Company), o programa «Ataque Verbal» na extinta Fm Radical. Strictly hip-hop. Recebemos uma maquete que nos deixou com vontade de saber mais sobre o tal puto de Chelas. E fomos saber.

Com apenas dezassete anos, o puto Sam já tinha álbuns «imaginários» na prateleira, com direito a telediscos concebidos e gravados pelo próprio, com pouca ajuda, mas com muita pica. Tudo feito no seu quarto mágico. Ficámos impressionados. Quem não ficaria?

Entretanto, muita coisa se passou. A maior parte dos elementos do «movimento» da altura dispersou-se, os contactos foram diminuindo e eu afastei-me – por motivos pessoais – quase totalmente do hip-hop que se faz na «tuga». Em casa e fora dela. Gostei de ver o que o A.C.(Boss A.C.) e o Gutto (ex-Black Company) fizeram através da sua No Stress Records, nomeadamente da compilação que lançaram, «T.P.C.».

Há um par de semanas recebi, através da colaboração que mantenho com a Antena 3 (com a rubrica diária «Mercado Negro»), o álbum «Sobre(tudo)». Preparava-me para gravar a semana inteira e já tinha todos os temas escolhidos, mas bastou- me picar o Cd durante uns breves minutos para escolher uma canção e passá-la para o computador.

Curiosamente, no sábado seguinte, vejo, ao reler o «Y» do dia anterior, um artigo sobre o concerto dos ingleses Braintax, com prestação do DJ Harry Love e primeira parte assegurada por Sam the Kid. Se há coisa que concordo com a inefável Lili Caneças é que também não acredito em coincidências. O evento iria decorrer daí a meia-hora, na galeria Zé dos Bois.

Quarenta minutos depois estava lá.

Depois de um aquecimento eficiente por Harry Love, Sam subiu ao palco para apresentar o novo disco. O público aderiu entusiasticamente a uma boa dose de excelentes rimas e beats, com atitude q.b., proporcionadas por Sam e o seu sidekick G.Q. Depois do seu concerto, assisti a um par de temas de Braintax e vim-me embora. Já estava de barriga cheia e parece que alguém tinha acabado de «levar uma ratada»...

Desde então «Sobre(tudo)» tem sido presença habitual no «Mercado Negro». Porque é o espelho de um rapper que escreve com uma acutilância e sensibilidade incríveis, lado a lado com instrumentais requintados. E numa altura em que muito hip-hop vive de «show off» é reconfortante ouvir alguém dizer coisas como: «não quero, nem tenho a fama de garanhão/ furar damas sem ter o mínimo de atracção/ foda-se parece que é obrigação/ tipo uma competição, tipo bifas no Verão (...) beleza interior/ com sabor a espontaneidade/ que se torna muito superior/ ao reflexo de um vidro que reflecte uma fase/ expressões atraentes de uma mente com classe» (em «B.I.»).

«A cota Isabel manda B.I.», diz o Samuel. Sabes o que nós dizemos, puto? Tu também mandas. Tu também...

«Sobre(tudo)», edição independente com distribuição e promoção asseguradas pela Edel encontra-se à venda em várias discotecas, mas apanham-na de certeza na KingSize.

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